Com 28 anos, Filipe Sousa é Chief Marketing Officer da Zumub

Filipe Sousa é barcelense e, com apenas 28 anos, tornou-se Chief Marketing Officer da Zumub (empresa de referência na nutrição desportiva e alimentação funcional), um cargo de responsabilidade na liderança de equipas nacionais e internacionais.

Com prémios académicos no curriculum, Filipe Sousa apresenta a sua visão de liderança e marketing, estratégia empresarial e desafios de mercado, numa entrevista à Rádio Barcelos, conduzida pela jornalista Sandra Veloso Fernandes.

 

 

Rádio Barcelos (RB) – Filipe fez Licenciatura em Economia na Faculdade de Economia do Porto e assim que termina decide ir trabalhar. Como define este seu percurso até chegar à Zumub?

Filipe Sousa (FS) – Sim, eu fiz a Licenciatura na Faculdade de Economia do Porto e quem conhece sabe que lá se abrem portas ao nível do associativismo e isso acabou por ser a minha primeira experiencia no empreendedorismo. Na altura criei três projetos de intervenção social desenvolvidos com outras pessoas, um deles em Barcelos que se estendeu depois a outras cidades (acabou por ser premiado). Esse espírito desenvolveu-me competências solidificando o meu percurso. Tratou-se duma experiência académica, mas depois decidi seguir a via profissional e comecei numa big four – a KPMG (uma das quatro melhores empresas de consultadoria, auditoria e fiscalidade), seguiu-se a Deloitte, ainda antes de ingressar na Zumub, uma empresa portuguesa ao contrário das anteriores. A Zumub tem bastante relevância ao nível nacional e internacional, é conhecida por ser fornecedora de nutrição desportiva por exemplo ao Atlético de Madrid, ou noutras modalidades a clubes conhecidos a nível mundial como de Bayern Feyenoord, Paris Saint-Germain, ou em Portugal também Benfica, Porto e Sporting; o Gil Vicente que é o melhor clube que temos e o Óquei Clube de Barcelos também faz parte da lista de clubes com quem a Zumub trabalha e tem sido um percurso interessante sim.

RB – Como tem sido esse desafio depois de assumir a liderança de equipas?

FS – Quando saí da Deloitte para a Zumub comecei como gestor de projeto e na realidade não sabia se iria trabalhar com projetos de marketing ou outras áreas, nem geria equipas. Depois comecei a gerir um projeto relacionado com business intelligence, no marketing e só mais tarde assumi projetos mais complexos e passei a gerir equipas, um trabalho progressivo até ficar a gerir todo o departamento: são cerca de 30 pessoas, já a contar com as equipas de Espanha, França, Itália, Alemanha e Holanda.

RB – Que características são essenciais para assumir a liderança de equipas constituídas por pessoas oriundas de diferentes países, diferentes culturas e diferentes visões?

FS – A nossa equipa além de portugueses, tem, ainda, pessoas do Equador, Colômbia, Bolívia, Áustria, França Itália, uma equipa multicultural e a trabalhar todos juntos, de forma presencial, o que é algo atípico neste tipo de estruturas, mas nós estamos todos juntos e facilita bastante. A integração de culturas diferentes também ajuda, sobretudo para nos adaptarmos aos mercados, porque os portugueses têm uma visão muito solidificada do que os portugueses consomem e pensam na marca, mas a nossa visão é muito mais reduzida s compararmos com outros.

RB – A nível da liderança, que estratégias são fundamentais para gerir as equipas e todos alinharem nos objetivos traçados pela marca?

FS – A equipa tendo 30 pessoas obviamente não estou a gerir todos, o que é ótimo, mas por outro lado cria um desafio de gerir lideres, são cerca de 6 pessoas com quem trabalho diretamente e 30 indiretamente. Antes da Zumub já tinha experiência de gerir no primeiro nível de liderança que, na minha opinião, é a mais fácil e estava solidificado nesse patamar. Na Zumub tive a primeira experiência a liderar lideres – que é o que faço agora –  é mais difícil, porque o nível de visibilidade é mais reduzido, o nível de autonomia destas pessoas é muito superior, mesmo para tomarem algumas decisões o que faz com que não tenha visibilidade de tudo e a informação fica mais dispersa, no entanto, esse equilíbrio entre saber delegar, saber criar autonomia e, sobretudo, desenvolver capacidades de liderança para eles fazerem um bom trabalho a gerir as suas equipas é um foco grande, muito desafiante, pois as pessoas que estão em cargos de liderança são mais competentes, pessoas que aportam mais valor do que os que estão a começar.

RB – O trabalho de equipa é fundamental e determinante para alcançar o sucesso?

FS – Sim, recrutar e gerir equipas é das tarefas mais escaláveis que nós temos. Quando contratamos alguém, essa pessoa vai trabalhar connosco um, dois, três, cinco anos e é uma forma de nos multiplicar-nos. A vantagem de gerir equipa é que entregamos um valor muito superior do que se estivéssemos sozinhos. É a prioridade número um de qualquer líder, ou deveria ser.

RB – Como se contornam as adversidades perante um mercado tão competitivo?

FS – O mercado é muito competitivo realmente e, na nossa área, somos sobretudo e-commerce, existem muitas empresas. Podemos dizer que a entrada no mercado das empresas sem produção é relativamente fácil, mas nós que temos produção interna é mais difícil, ainda assim, é um mercado que sendo online exige facilidade de concorrentes externos ou internacionais entrarem em Portugal e competirem connosco, da mesma forma que nós fazemos lá. Ora isto faz com que seja um mercado mais global e se estivermos a falar em concorrentes espanhóis, alemães, franceses, estas economias são superiores à nossa, o capital de risco e a capacidade de investir é superior ao nosso, logo são vantagens competitivas que vão trazer mais dificuldades para uma empresa sedeada em Portugal que se quer tornar uma marca global. Mas temos vantagens do nosso lado também, por exemplo os salários são mais baixos e temos um nível de talento comparável ou superior até. Em suma, é um mercado difícil, principalmente quando o nosso objetivo passa por internacionalizar e ser uma das melhoras da Europa. Para o nosso nível de ambição, é muito difícil e um desafio constante.

RB – Atualmente, a área da alimentação, nutrição e desporto são tópicos de busca e, de facto, podemos afirmar que é um mercado em crescimento?

FS – Sim, o mercado do fitness está a crescer bastante e nós também estamos a beneficiar disso, obviamente. As pessoas cada vez mais procuram um estilo de vida saudável, estar melhor fisicamente e é aí que a Zumub atua. Além disso, o público está cada vez mais informado e no negócio online é muito fácil através de dois separadores, comparar preços e características dos produtos. Isto também é uma vantagem para a Zumub e quanto mais as pessoas compararem a relação qualidade/custo, acho claramente que vão  comprar mais a nós, à Zumub.

RB – Qual o maior desafio do sector?

FS – A nossa principal prioridade é o crescimento via internacionalização e é esse processo que estamos a fazer. 2025 correu bem e 2026 também está a correr bem, ainda assim, para nos tornar-mos uma marca top 3 ou top 4 em Espanha, França, Itália, normalmente esse é um processo lento e exige um nível de investimento alto, o que coloca em causa a rotatividade de capital duma empresa em crescimento acelerado como a Zumub. Esse é o principal desafio: crescer cada vez mais rápido e de forma eficiente. É o principal desafio ao nível do crescimento e depois existem outros desafios que todas as empresas têm de mitigar, nomeadamente quais os riscos que a empresa tem ao nível de crescimento. Não estamos habituados a não crescer, mas temos de estar atentos e preparados, sobretudo com ameaças de players internacionais, pois pode acontecer uma entrada forte com preços competitivos. Temos de estar atentos.

RB – Numa entrevista, citou uma frase que o CEO da Zumub usa: “trabalhar nesta área é uma maratona, não um sprint”. É uma aprendizagem lógica que tem feito sentido neste seu caminho profissional?

FS – Ele costuma dizer isso, porque eu sou “workolic”, trabalho muito e ele diz-me para ter calma, mesmo ao nível da saúde. É algo que ele considera importante e uma preocupação e, na verdade, eu nunca tinha tido essa experiência para trabalhar menos, não significa menos exigência, mas eu considero que essa frase é válida para muita coisa.

A Zumub é um caso desses, ok queremos ser uma das melhoras empresas da Europa, mas ao mesmo tempo não vale tudo, não podemos arriscar tudo.

RB – Olhando para o seu percurso, optou por não fazer Mestrado e seguir para o mercado de trabalho. Hoje, olhando para o cargo de responsabilidade que tem aos 28 anos, que mensagem diria aos jovens que estão ainda a estudar?

FS – É uma história engraçada, porque na altura a FEP ofereceu-me o mestrado, por ter vencido um prémio e na verdade isso torna-se ainda mais interessante se procurarmos as razões para não o ter feito, mas naquele momento achei que iria ser no mercado de trabalho que ia evoluir mais, claro que isto só foi possível porque surgiu a oportunidade. Isso ajudou a acelerar tudo. Ainda assim, o facto de estar aos 28 anos nesta posição aumenta a probabilidade de cair mais depressa. Não é por ser Chief Marketing Officer da Zumub aos 28 anos que serei presidente da República aos 50 anos, nada disso. Importa dar um passo de cada vez e o objetivo é tornar a Zumub o maior possível, esse é o foco e tenho de fazer isso bem, para não dar passos atrás.

RB – Falou em alguns clubes de referência internacional, mas faz questão de dizer que é o Gil Vicente e também de defender a identidade local. Estando a trabalhar em Lisboa isso tem uma significado maior?

FS – Sim, é engraçado que existem algumas pessoas do norte na nossa equipa e também eles gostam de elevar a identidade cultural do norte, em Lisboa. E na verdade eu acho que Barcelos está em todo o lado, há dias estava a trabalhar e até o símbolo da S. Silvestre de Barcelos me apareceu e não fui eu a levar. Barcelos está em todo o lado.

RB – Já falou na UPrise Talent, o projeto que desenvolveu na Faculdade, que diz respeito a uma associação juvenil para potenciar o talento dos alunos do ensino secundário, através de várias atividades e escolher o melhor curso e universidade. Que projeto é este que ao que sei será para retomar atividade em breve?

FS – Na altura, eu, o João e o Ricardo – os três de Barcelos –  estávamos em faculdades diferentes e todos tinham tido experiências associativas na universidade e juntámo-nos para desenvolver um projeto dirigido para os alunos do secundário, havia pouca informação para saber qual o curso ou universidade a seguir e achamos que podíamos desenvolver formações e projetos para os orientar. Começamos em Barcelos, nas escolas secundárias e expandimos para o Porto e Coimbra. Agora ao que sei uma pessoa pretende reativar com novos projetos.

RB – Para quem faz este percurso da economia, ao marketing, liderança de equipas, numa empresa em crescimento de mercado, que expetativas e desafios profissionais coloca ao seu futuro?

FS – Em termos profissionais, o objetivo é solidificar. A quem chega muito rápido a uma posição como a que ocupo, provavelmente existem pontos mais frágeis para melhorar, tornar o perfil mais robusto e pensar em cumprir a minha função. Essa é a prioridade número 1, 2, 3, 4, 5 e a partir dai aproveitar as oportunidades que forem surgindo.

 

 

Pode assistir à entrevista na página do Youtube da Rádio Barcelos: